sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Depois das Ruas - Capítulo 1 - Impacto de uma noite

I - Impacto de uma noite

      Eram vinte e cinco de junho de dois mil e treze. Aproximadamente dezoito horas. A Avenida Paulista, centro financeiro da capital paulistana, mas, naquele instante, também um centro político nacional, fervilhava de gente! Os manifestantes tomavam o asfalto no resplandecer de um movimento democrático que as gerações futuras jamais esqueceriam! Fosse de patrióticas caras-pintadas de verde e amarelo, fosse de orgulhosas caras-lavadas, uma multidão de pessoas coloria a avenida exibindo cartazes que traduziam todo tipo de insatisfação:

      - "Fora com o presidente do Senado", dizia um cartaz; "Abaixo o fascismo disfarçado!", clamava outro; "Contra a emenda inconstitucional", advertia um terceiro; "Abaixo a presidente!", pedia mais um. Havia cartazes para todos os gostos ou tipos de insatisfação: alertava-se para o sucateamento da saúde pública e os altos custos dos planos de saúde privada, para os salários escorchantes dos professores, a cara de pau e a petulância de deputados e senadores, a precariedade e insuficiência do transporte municipal, a insegurança nas cidades, o preço dos alimentos, a falta de controle da inflação, os impostos aviltantes, a legislação em causa própria praticada pelo Congresso Nacional, a corrupção desenfreada, enfim, todo tipo de clamor legítimo e significativo ecoava e encontrava guarida entre os edifícios da capital paulista. Havia até a declaração de anseios mais provincianos ou bem humorados por parte daqueles que, insatisfeitos com a vida de um modo geral, aproveitavam a oportunidade para exercer um mínimo que fosse de liberdade civil: aqui, uma senhora protestava contra o aumento do preço da ração de seu cãozinho de estimação; acolá, um mendigo maltrapilho, convocava os políticos para as ruas, num cartaz criativo de, no mínimo, triplo sentido; mais adiante uma criança reclamava por mais sorvete! Entre os cartazes bem humorados, havia um que pedia a importação de médicos bonitões do exterior, e outro, um tanto quanto dadaísta, que exigia a revogação imediata da lei da gravidade, sob pena de queda da presidente!

      Nesse ambiente de catarse coletiva que misturava tensões íntimas e festividade, vamos encontrar um rapaz de olhos vivos, azulados e expressivos, cuja fisionomia transparecia energia e vitalidade. Esse rapaz de pouco mais de quinze anos completos desfilava a passos largos por entre as pessoas, abrigando no peito um sentimento de profunda alegria. Portador de "Osteogenesis Imperfecta" tipo I, uma síndrome que, embora de grau leve, lhe fragilizava os ossos e provocava fraturas frequentes, esse jovem que ora mergulhava na avenida, tomado de ânimo, sempre vivera cercado de cuidados e restrições que o impediam de desfrutar das mais prazerosas atividades ao ar livre. Seu corpo talhado de cicatrizes testemunhava o passado de sofrimento. Uma cicatriz puntiforme no punho esquerdo, por onde se instalara um fio cirúrgico no interior do osso do antebraço, após uma fratura, outra cicatriz transversal, na altura de metade do úmero direito e mais uma na altura do tornozelo esquerdo eram os troféus que ostentava em memória a suas vitórias passadas sobre as agruras de sua doença. Agora, num momento esplendoroso de sua vida, sentia-se genuinamente feliz com a possibilidade de desfilar livremente. Além de sentir-se, mais que nunca, um vencedor na sua luta particular para sair de um mundo de constantes cuidados e limitações para vibrar ativamente ao ar livre, tinha a sensação vibrante e precognitiva de estar vivendo um momento de importância histórica! Nos últimos dias vinha sendo atraído para esse movimento como o ferro, pelo metal imantado! Ainda pulsavam em suas veias os ecos instigantes da conversa acalorada que tivera há dois ou três dias com um parente advogado que viera do interior. O parente, valendo-se de seus conhecimentos de direito constitucional, lhe mostrara como o sistema de governo brasileiro era um dos mais evoluídos do mundo, onde a independência dos poderes era sustentada por um sistema legislativo de pesos e contrapesos e que a democracia e a representatividade do povo nesse governo eram asseguradas por eleições diretas até mesmo para a presidência da república. O jovem, por sua vez, não se conformara com o fato de essa "democracia representativa e evoluída" produzir resultados tão distantes dos anseios populares! Para ele algo estava errado nesse sistema! Não era justo que o povo ignorante, iludido pela propaganda político-partidária milionária, elegesse representantes que depois tivessem de ser, inapelavelmente, seus algozes implacáveis durante quatro anos! Mas, diferentemente do que percebera a respeito de tantos de seus amigos, o que movia o impetuoso coração adolescente de nosso protagonista, não era o clamor pela substituição de parlamentares e governantes; seu pensamento era outro: - quem asseguraria que os próximos representantes a assumir as cadeiras vazias não cometeriam os mesmos desmandos, num sistema político esplendoroso nos códigos legislativos, mas que demonstrara ser incapaz de autocontrole na vida prática? Algo havia de errado com esse sistema de representação pouquíssimo representativo! E era isso que lhe tensionava as fibras do coração e tangia sua alma num ímpeto irrefreável por mudanças...

      Pedro - esse era seu nome - sentia o apelo da transformação! E pressentia que o momento dessa transformação havia chegado!

      E é assim que, carregando no íntimo, inúmeras dúvidas e inquietações, muito embora a imagem desse jovem fosse a de pura energia e vitalidade, com sua imagem juvenil e os longos cabelos castanhos atiçados pelo vento, aquele que pudesse perscrutar sua alma através da janela aberta de seus olhos expressivos, notaria o espinho árido da angústia a incomodar-lhe a paz! Angústia latente, percebida pelo próprio adolescente como se fosse tão somente a sensação de desconforto de sua alma irrequieta a clamar silenciosamente por justiça e transformação...

      Porém, talvez não fosse apenas isso. Talvez Pedro, jovem de espírito resplandecente e sensitivo, estivesse captando, sem atinar, tensões ocultas que espreitavam o próprio ambiente de revolta e insatisfação naquele período turbulento... Talvez estivesse captando influências amargas e opressoras que fugiam à sua capacidade de compreensão...

      Mas retornemos ao panorama da avenida onde Pedro se encontrava imerso na multidão das ruas, absorvido pelo movimento que, como ele próprio, ao mesmo tempo em que encantava pela alegria e festividade, também se achava envolvido num turbilhão invisível de pensamentos ansiosos e contraditórios...

      Nessa situação é que o entusiástico protagonista desta história foi subitamente tomado por de uma sensação de mal estar. De início, sentiu um calafrio indefinível a percorrer-lhe a espinha. Depois, todos os pelos do corpo ficaram arrepiados. Em seguida um estranho desequilíbrio, turvação da visão e náuseas o fizeram curvar-se sobre o próprio tronco enquanto caminhava cambaleante pela multidão. Temeu perder os sentidos por ali mesmo. Isso seria um desastre. Ser pisoteado pela multidão eufórica, sendo portador da síndrome que lhe fragilizava os ossos seria retroceder a outro período de restrição ao leito e cuidados ortopédicos, como tantos pelos quais já passara antes!

      Coincidência ou não, no instante em que nosso personagem iniciava sua inexplicada sintomatologia, um contingente de dez ou quinze homens encapuzados passava a meia quadra de distância, bradando palavras de descontentamento, e caminhava em direção a determinado ponto, aonde metros adiante, os destinos desses homens e de nosso jovem amigo cambaleante iriam se encontrar. Em instantes esse grupo iniciou uma ação de depredação contra certa loja de departamentos, enquanto Pedro, semiconsciente, se aproximava do mesmo lugar.

      Foi numa fração de segundos - num átomo de fração de segundos, talvez! - que se sucedeu o fato que desencadearia uma série de acontecimentos impressionantes. Pedro estava a poucos metros daquele grupo que vandalizava o estabelecimento alheio. Ou estava já no meio desse grupo de pessoas ensandecidas? Sua consciência fragilizada não permitia discernir... Já não via homens encapuzados cometendo atos de vandalismo; seus olhos entorpecidos enxergavam, agora, vultos tênues e quase inanimados, de seres humanos que se ocupavam de modo semiconsciente dum ato de depredação, enquanto criaturas de aspecto monstruoso os induziam como se foram marionetes. A cena se envolvia em emanações vaporosas de cores abomináveis e exalava uma tensão psíquica carregada de ódio e insanidade que para os quinze anos de idade de nosso personagem chegavam às raias de uma alucinação insuportável.

      Pedro estendeu a mão direita em direção às criaturas, numa súplica quase inaudível... - Não...

      Chegou a entrever o que parecia ser um bastão... Depois um som surdo. A sensação de um baque na região frontal. Ou seria esse estado hipnótico de torpor que enganava seus sentidos?!

      Foi assim que ali, na calçada do centro financeiro mais agitado do país e, naquele instante, convertido também em centro político nacional, Pedro desfaleceu!

-------------

Próximo Capítulo -> Capítulo II - Despertar

Gilberto de Almeida
02/08/2013

Nenhum comentário:

Postar um comentário